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Os Melhores Debates Ateus X Religiosos - Alfredo Bernacchi - Parte 1


DO FORUM RELIGIÃO É VENENO

Religião é um atraso de vida (2001).

Alfredo inicia o tópico assim:

Você, naturalmente, cético, resolveu ler esse artigo, para ver onde eu errei nesse raciocínio.
Naturalmente, pessoas religiosas, têm uma tendência natural de compreender a religião, encontrar suas vantagens, justificar suas crenças, mas, quem tem um pouco de bom senso, quer entender sem ser cabra cega nem pau mandado, vai admitir que todas as religiões têm os seus problemas e suas mazelas.
Eu, conclui, justamente analisando essas mazelas, que a religião traz mais malefícios do que benefícios. É uma triste e radical conclusão, mas não é uma distorção da realidade, e eu vou explicar isso. Se não fosse assim eu não discorreria esse assunto, mas aí vai, como advertência, para você entender e cuidar, para que não se prejudique nem prejudique ninguém com suas crenças.
Você torce por um time de futebol e fica feliz quando consegue induzir alguém a torcer pelo mesmo clube que o seu, fazer parte da mesma comunidade, mesma corrente de pensamentos. Tudo bem.
Quando a coisa toma o rumo da política, as discussões são ainda mais acaloradas, porque política interfere diretamente na sua vida e é diferente de um simples esporte. Você debate muito para convencer o seu interlocutor sobre as vantagens de adotar a sua linha de pensamento. Entretanto, apesar dessa forte influência, a cada 4 anos tudo muda. O que era, passa a não ser, mais. Os líderes mudam, os partidos mudam, as idéias mudam etc.
Mas quando se trata de religião, a coisa fica muito mais séria. Nem eu mesmo entendo, como uma simples doutrina de vida, ou algo para ser usufruído depois da morte, pode se transformar num fanatismo exacerbado, carregando nessa corrente uma tonelada de interesses de poder, de superioridade, de convencimento, de ódio, até chegar no ápice do suicídio terrorista. Repare bem que o terrorista suicida mata e morre pela sua crença religiosa. Estaria ele sendo usado? Claro que sim, mas é a religião que proporciona esse desequilíbrio mental no indivíduo. Ele mata e morre, porque acha que a sua religião está correta e a dos outros está errada, de tal forma errada, que essa imperfeição deve ser corrigida com morte de ambos para satisfação do seu Deus.
Haveria interesses financeiros por trás disso tudo? Sim. Há também. Sempre há espaço para que um esperto manipule uma mente fanática e retire das suas emoções, algo em proveito próprio. Está aí a igreja católica, o bispo Macedo, o mulá Omar, o sheik de não sei o quê, desde um simples pajé tribal, todos proporcionalmente, são podres de ricos - Exceção para Jesus (ironia) - riqueza feita nas costas desses ingênuos e influenciáveis fanáticos.
Além do interesse financeiro direto, há também outras situações em jogo. O prestígio, a vaidade, o ego, a liderança, a força de decisões, que se limita no poder da vida e da morte, porque não há mais nada depois disso, bem próximo do poder de um hipotético Deus. O homem religioso que se fanatiza e se endeusa, só fica satisfeito, quando pelo seu poder, num estalar de dedos, dezenas e centenas de pessoas venham a morrer ou ser mutilados pela sua simples vontade, para assim comprovar o seu poder e temor. Pra que isso? Não sei explicar exatamente, mas sei que é assim. Quem lê história universal sabe perfeitamente disso. O próprio Jesus, pela sua crença religiosa, causou inúmeras mortes entre os seus seguidores, e a dele mesmo. Se sabia disso, não fez por onde evitar.
Afinal o que o homem quer? Dinheiro, prestígio, temor, poder? Não. Não é só isso... O homem quer ser Deus. O homem inventa a religião para poder estar mais próximo de ser um Deus único. (os casos de Jesus, Maomé e outros) E aí está o problema. Um pretenso Deus não admite concorrentes. Portanto, um Deus cá e um Deus lá, resulta numa disputa que leva os povos à guerra. (repare: “os povos”, nunca os próprios). Esse é o pior e principal atraso de vida que traz a religião. A guerra!... A morte!... A devastação!... A humilhação do conquistado. A exploração, a escravidão...
Lembra-se dos reinados ingleses? Variavam entre reis católicos e protestantes. Mudava o rei, alterava-se toda a estrutura do país e, pra variar, morria muita gente. Todos os dissidentes. Os resíduos desse desentendimento religiosos perduram até hoje na Irlanda, colônia inglesa, onde vivem se digladiando católicos e protestantes. Existem outros interesses que discutem, além desse? Sim, há o problema da independência, mas a religião é o principal pomo da discórdia, o centro de geração de ódios e diferenças. O que dizer de tantos países que se envolvem em guerras étnico-religiosas? Iugoslávia (Sérvios x Muçulmanos Bósnios e Croatas), Palestinos x Israelenses (Judaísmo x Islamismo), Afeganistão (entre facções islâmicas - antes do WTC), Irlanda (católicos x protestantes), Sri Lanka (hinduístas x budistas), Argélia (entre facções islâmicas), China (x Tibet de Dalai-lama) Rússia (x islâmicos da Chechênia) Índia x Paquistão (hindus x islâmicos na Caxemira), Timor Leste (islâmicos da Indonésia x católicos). Sempre há motivos religiosos despertando ódios e empurrando uns contra os outros. Por que Hitler escolheu os judeus para o holocausto? Por causa do aspecto físico ou o aspecto religioso? Lembram da inquisição? Quanta crueldade em nome de um pressuposto Deus? Realmente, foi um Deus que ordenou aquelas mortes, ou foram homens que se achavam deuses? A religião foi a culpada...
E dos tempos de Roma e as lutas internas do cristianismo contra outras religiões? Quem pode esquecer que os papas disputavam e sobrepujavam o poder dos próprios reis no século XII e por aí, convencendo-os do maior poder de Deus (que eram eles mesmos)... Lembram da inquisição? Quanta crueldade em nome de um pressuposto Deus? Realmente, foi um Deus que ordenou aquelas mortes, ou foram homens que se achavam deuses? A religião foi a culpada... Que tal uma análise rápida do islamismo? Não está aí uma clara discordância religiosa que leva os povos às guerras?
A ciência, tão necessária à humanidade, já teve muito problema ao se defrontar com a religião e a ciência vive se defrontando com a religião, porque não caminham na mesma direção e qualquer um sabe disso. Esse é outro atraso. Enquanto a ciência é objetiva a religião vive de hipóteses e fantasias, descortinadas por pretensos adivinhos. (que, naturalmente, erram toda hora). Os papas, que gostariam de ser deuses, tentam acertar, à sua moda, o que é melhor para o povo cristão, mas na sua ânsia de mostrar poder absoluto e onisciência erram e prejudicam a humanidade. Estão aí, proibindo a camisinha, a anticoncepção e o desenvolvimento da ciência genética. Tudo isso por quê? Disseram diferente antes, e agora não querem suportar outra contradição, depois daquela que Galileu lhes impôs, quando, contrariando os religiosos da idade média, afirmou que a terra era redonda e girava em torno do sol. Não vão suportar o homem fazendo o próprio homem, segundo eles, obra divina.
E hoje, quando temos mais de 20 religiões com crenças diferentes, em deuses diferentes, que agem de forma diferente uns dos outros (não esqueça que dos 6 bilhões de habitantes da terra apenas 1,8 bilhão são cristãos) temos as mesmas mazelas de sempre. Religiosas. Claríssimo que, se não houvesse religiões, haveria menos guerras, com certeza. Menos entraves ao progresso cientifico, mais solução no controle da natalidade. (daqui a 50 anos seremos 9 bilhões) E na vida religiosa que ninguém se entende, só uma coisa ninguém duvida: a exploração do crente. Assim, os cristãos, hindus, judeus, budistas, pagam para serem religiosos, em dinheiro, ouro e terras e os muçulmanos, além disso, com a própria vida!... Cá pra nós... Um atraso de vida...

O Livro do Desassossego - Fernando Pessoa - Parte 6

É preciso certa coragem intelectual para um indivíduo reconhecer destemidamente que não passa de um farrapo humano, aborto sobrevivente, louco ainda fora das fronteiras da internabilidade; mas é preciso ainda mais coragem de espírito para, reconhecido isso, criar uma adaptação perfeita ao seu destino, aceitar sem revolta, sem resignação, sem gesto algum, ou esboço de gesto, a maldição orgânica que a Natureza lhe impôs. Querer que não sofra com isso, é querer demais, porque não cabe no humano o aceitar o mal, vendo-o bem, e chamar-lhe bem; e, aceitando-o como mal, não é possível não sofrer com ele.

Conceber-me de fora foi a minha desgraça – a desgraça para a minha felicidade. Vi-me como os outros me vêem, e passei a desprezar-me não tanto porque reconhecesse em mim uma tal ordem de qualidades que eu por elas merecesse desprezo, mas porque passei a ver-me como os outros me vêem e a sentir um desprezo qualquer que eles por mim sentem. Sofri a humilhação de me conhecer. Como este calvário não tem nobreza, nem ressurreição dias depois, eu não pude senão sofrer com o ignóbil disto.

Compreendi que era impossível a alguém amar-me, a não ser que lhe faltasse de todo o senso estético – e então eu o desprezaria por isso; e que mesmo simpatizar comigo não podia passar de um capricho da indiferença alheia.

O Livro do Desassossego - Fernando Pessoa - Parte 5

Com um charuto caro e os olhos fechados é ser rico.

Como quem visita um lugar onde passou a juventude consigo, com um cigarro barato, regressar inteiro ao lugar  da minha vida em que era meu uso fumá-los. E através do sabor leve do fumo todo o passado revive-me.

Outras vezes será um certo doce. Um simples bombom de chocolate escangalha-me às vezes os nervos com o excesso de recordações que os estremece. A infância! E entre os meus dentes que se cravam na massa escura e macia, trinco e gosto as minhas humildes felicidades de companheiro alegre de soldados de chumbo, de cavaleiro congruente com a cana casual meu cavalo. Sobem-me as lágrimas aos olhos e junto com o sabor do chocolate mistura-se ao meu sabor a minha felicidade passada, a minha infância ida, e pertenço voluptuosamente à suavidade da minha dor.

Nem por simples é menos solene este meu ritual do paladar.

O Livro do Desassossego - Fernando Pessoa - Parte 4

Sonho triangular

No meu sonho no convés estremeci – é que pela minha alma de Príncipe Longínquo passou um arrepio de presságio.

Um silêncio ruidoso a ameaças invadia como uma brisa lívida a atmosfera visível da saleta.

Tudo isto é haver um brilho excessivo a inquietá-lo no luar sobre o oceano que não embala já mas estremece; tornou-se evidente – e eu ainda os não ouvi – que há ciprestes ao pé do palácio do Príncipe.

O gládio do primeiro relâmpago volteou vagamente no além... É cor de relâmpago o luar sobre o mar alto e tudo isto é ser ruínas já e passado afastado o meu palácio do príncipe que nunca fui...

Com um ruído soturno e aproximando-se o navio entre as águas, a saleta escurece lividamente, e não morreu, não está preso algures, não sei o que [é] feito dele – do príncipe – que gélida coisa desconhecida lhe é o destino agora?...

O Livro do Desassossego - Fernando Pessoa - Parte 3

A vulgaridade é um lar. O quotidiano é materno. Depois de uma incursão larga na grande poesia, aos montes da aspiração sublime, aos penhascos do transcendente e do oculto, sabe melhor que bem, sabe a tudo quanto é quente na vida, regressar à estalagem onde riem os parvos felizes, beber com eles, parvo também, como Deus nos fez, contente do universo que nos foi dado e deixando o mais aos que trepam montanhas para não fazer nada lá no alto.

Nada me comove que se diga, de um homem que tenho por louco ou néscio, que supera a um homem vulgar em muitos casos e conseguimentos da vida. Os epilépticos são, na crise, fortíssimos; os paranóicos raciocinam como poucos homens normais conseguem discorrer; os delirantes com mania religiosa agregam multidões de crentes como poucos (se alguns) demagogos as agregam, e com uma força íntima que estes não logram dar aos seus sequazes. E isto tudo não prova senão que a loucura é loucura. Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores que a vitória no meio dos desertos, cheia de cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada.

O Livro do Desassossego - Fernando Pessoa - Parte 2

Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje – tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara –, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.

Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular – jardim público ao quase crepúsculo –, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.

O Livro do Desassossego - Fernando Pessoa - Parte 1

Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto [em] que, sobre uma loja com feitio de taberna decente, se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo pouco freqüentadas, é freqüente encontrarem-se tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de apartes na vida.

O desejo de sossego e a conveniência de preços levaram-me, em um período da minha vida, a ser freqüente em uma sobreloja dessas. Sucedia que, quando calhava jantar pelas sete horas, quase sempre encontrava um indivíduo cujo aspecto, não me interessando a princípio, pouco a pouco passou a interessar-me.

Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava – parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito.

Jantava sempre pouco, e acabava fumando tabaco de onça. Reparava extraordinariamente para as pessoas que estavam, não suspeitosamente, mas com um interesse especial; mas não as observava como que perscrutando-as, mas como que interessando-se por elas sem querer fixar-lhes as feições ou detalhar-lhes as manifestações de feitio. Foi esse traço curioso que primeiro me deu interesse por ele.

Passei a vê-lo melhor. Verifiquei que um certo ar de inteligência animava de certo modo incerto as suas feições. Mas o abatimento, a estagnação da angústia fria, cobria tão regularmente o seu aspecto que era difícil descortinar outro traço além desse.

Soube incidentalmente, por um criado do restaurante, que era empregado de comércio, numa casa ali perto.

Um dia houve um acontecimento na rua, por baixo das janelas – uma cena de pugilato entre dois indivíduos. Os que estavam na sobreloja correram às janelas, e eu também, e também o indivíduo de quem falo. Troquei com ele uma frase casual, e ele respondeu no mesmo tom. A sua voz era baça e trêmula, como a das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar. Mas era porventura absurdo dar esse relevo ao meu colega vespertino de restaurante.

Não sei porquê, passamos a cumprimentarmo-nos desde esse dia. Um dia qualquer, que nos aproximara talvez a circunstância absurda de coincidir virmos ambos jantar às nove e meia, entramos em uma conversa casual. A certa altura ele perguntou-me se eu escrevia. Respondi que sim. Falei-lhe da revista Orpheu, que havia pouco aparecera. Ele elogiou-a, elogiou-a bastante, e eu então pasmei deveras. Permiti-me observar-lhe que estranhava, porque a arte dos que escrevem em Orpheu sói ser para poucos. Ele disse-me que talvez fosse dos poucos. De resto, acrescentou, essa arte não lhe trouxera propriamente novidade: e timidamente observou que, não tendo para onde ir nem que fazer, nem amigos que visitasse, nem interesse em ler livros, soía gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também.

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